Isabella POV´s.
Quinta avenida, sexta-feira, seis e alguma coisa da tarde (ou noite).
Me sentei na poltrona de Fernanda e soltei um suspiro pesado. Como eu poderia ter largado minha profissão, meu apartamento e minha vida em Brighton pra vir morar em Nova York? Guardei o que tinha de guardar, fechei a sala e desci pela escada porque sabia que o elevador estava impossível. Depois de passar a tarde revisando as papeladas de Helena e marcar uma apresentação para ela daqui à duas semanas, finalmente tinha saído do meu trabalho e corri para a cafeteria mais próxima. A temperatura tinha caído drasticamente, e às vezes eu me esquecia que estávamos em pleno inverno. Os noticiários alertavam altas chances de nevasca, e eu apenas pensava: oh, dane-se! Desde que não afete Nova York estou bem. Ah, perdoe me por meu pensamento egoísta, mas ficar responsável pela vida de uma garota com mais de dezoito estressaria qualquer um.
- Isabella?
Meus pensamentos de egoísmo foram dispersados por uma voz masculina vindo de algum lugar próximo à mim, olhei em volta e vi do meu lado um cara. Alto, tinha os cabelos castanhos e um sorrisinho torto...
- Oh, meu Deus! Austin?! - praticamente gritei. Meu estômago revirou e senti minhas mãos suarem, as fechei e senti aquela merda pingar.
- Wow, quanto tempo! - ele puxou uma cadeira ao meu lado e se sentou - O que faz aqui?
- Eu quem te pergunto. - respondi usando um tom óbvio, ele riu.
- Eu tenho uma banda agora.
- Uma banda? - arqueei a sobrancelha - Sua?
- É... - ele bagunçou os cabelos - Mais ou menos. Sou baterista.
Aquele sorrisinho sem graça se formou em seus lábios e eu me contive para não suspirar. Porra, Isabella, porra! Você não tem mais treze anos, sua idiota! Você já tem 18. Ou quase isso. Foda-se.
- E você? Se formou em quê?
- Anh, então... - como explico pra ele que me formei no que queria e larguei tudo pra vir trabalhar pra uma patricinha mimada? - Me formei em letras, como eu queria. - dei meu sorriso sem graça - Mas estou trabalhando... Pra uma amiga.
- Onde? - pra quê tantas perguntas?
- Aqui perto. É tipo uma agência...
Austin arregalou os olhos.
- Você é tipo uma modelo? - o jeito com que seu tom de voz saiu me fez rir.
- Não! Ela desenha roupas e contrata modelos, na real sou mais tipo uma secretária.
- Ah, tá.
Espera... Ele ficou realmente aliviado com isso? Isabella, pára! Sem pensamentos desse tipo, ele apenas está conversando com você. E te reconheceu depois de anos. Ah, cale a boca.
- Suas roupas mudaram muito... - seus olhos subiram das minhas pernas para meu rosto.
- Não foi tanto assim. E você não mudou quase nada. - dei um peteleco em seu nariz e sorri. Austin fez uma careta e bagunçou novamente os cabelos.
Avaliando bem, eles estavam mais compridos. E mais bagunçados. Sorri de canto lembrando da dificuldade que sempre tinha em tentar desenhar os cabelos de Austin exatamente por isso: eles eram uma bagunça. Não parecia tanto tempo desde que tínhamos nos visto, mas uau, aqui estou eu, e ele está comigo. Em Nova York! Próximos de uma das nevascas mais fodas dos últimos dez anos. Sentados num café. E ele está me falando sobre a banda dele. Se for um sonho, não me acorde.
- Hm... Você tem algo marcado pra próxima sexta-feira à noite?
- Isso seria que dia? - ri um pouco.
- Dia 18.
- Uh... Acho que não.
- Toparia ir ver um show de uma das bandas mais podres do Universo? - um pedido quase suplicante estava naqueles olhos escuros.
- Se eu puder levar umas groupies...
- Opa! - rimos - É sério.
- Eu vou.
Austin sorriu. Aquele seu sorriso mais puro, que raramente estampava seus lábios. Os mesmos que eu sentia muita falta de... Merda. Não.
- Anh... Acho que preciso ir. Os caras tem um ensaio hoje, e bom... Se eu atrasar Andrew me mata. - Austin se levantou e quando caiu a ficha do que ele havia falado recebi um choque de realidade.
- Espera! Andrew está aqui?! E ele toca com você?!
- É... Ele é guitarrista. E vocal também. - o garoto colocava seu casaco.
- Legal... - tentei não parecer entusiasmada com aquilo, mas saber que McChurdy estava em Manhattan me empolgou.
- É... Legal. Então até mais, Isa.
Ele veio em minha direção e me deu um beijo na bochecha, junto com um meio abraço. Mas eu não queria apenas aquilo.
Apartamento da Fernanda em algum lugar perto da Quinta Avenida, sexta-feira, quase oito da noite.
- E aí, Isabella, quem era o gatinho que você tava conversando no café? - Mariana perguntou se jogando no colchão estendido na sala com um pedaço de pizza na mão.
- Espera! Isabella com um homem? O Mundo vai acabar! - Fernanda falou da cadeira do computador.
- Não era nada demais... Só um conhecido. - fiz pouco caso.
- Hum, tá. E conhecidos trocam beijinhos na saída? - Mari falou com um tom de segundas intenções.
- Mentira! - Ferda se jogou por cima do sofá e me encarou com um sorriso enorme no rosto - Isabella! E não ia contar isso pras amigas?
- Achei que não valesse a pena... - dei uma primeira mordida na minha pizza, não estava com muita fome.
- Nossinhora, que empolgação, hein?! - Fernanda se sentou ao meu lado - E aí, Mari, como ele era?
- Era bonito. Não muito bonito, mas era bonito... - franzi a testa - Era alto. E gostoso pra caralho.
- Era o Austin.
Falei quase como num sussurro e dei de ombros. Me joguei no colchão e coloquei as mãos atrás da cabeça. Ferda me encarava incrédula. Sua boca estava aberta e seus olhos demonstravam algo que soava como... Preocupação, talvez.
- O Faraday?
- É... - encarei o teto - Ele montou uma banda, sabia?! - um sorriso - Com o Drew. Eles estão em Nova York e vão fazer um show na próxima sexta... É incrível como ele não mudou nada, só cresceu mais ainda! - ri.
Ambas não falaram nada. Mari talvez por não saber o que dizer ou fazer, e Fernanda por ver como nada tinha mudado. Ótimo. Meu status atual? Um emprego de merda, hospedada na casa da melhor amiga, um gato sumido, uma nevasca à caminho e um ex-namorado que reaparece das cinzas junto com um ex-melhor amigo e uma banda. Melhor impossível!
Você entendeu o meu sarcasmo, não é?!
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